A extravagância
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A EXTRAVAGÂNCIA

Tradução de Alejandra Herzberg e Raul Antelo

Núcleo de Estudos Culturais – Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil, 1997.

 

“Não é possível falar sobre o sentido da vida sem usar falsas palavras, termos inexatos. Porém não tem jeito; aqui se deu um sistema solar que não se mexe mais. Para que ele se movimente é preciso alguma coisa que acabe com ele: eis a causa para inventar o ser humano. Ma isto se deu sem planejamento algum. Portanto não podemos dizer ‘estamos aqui para...’ O plano dos poderosos não é acatado em virtude dos poderosos mas por nossa maneira de pensar em causalidades que tendem sempre a estabelecer sistemas de valores e a determinar sentidos. Toda a história, as mitologias, são resultado destas cadeias planejadas de causas. Se destruímos então diversos fragmentos desse sistema, tiramos do eixo o sistema gravitacional e tudo vem por água abaixo.”

Rainer Werner Fassbinder

Uma única atriz deve interpretar os três papéis.

MARIA SOCORRO, sentada à esquerda da mesa;

MARIA BRUXAS, sentada à direita da mesa e

MARIA AXILA, que aparece na TV ao longo da peça.

Quando for indicado, o texto de Maria Axila será ouvido mais alto. Caso contrário, a imagem de Maria Axila no programa de TV não será ouvida mesmo que sua instigante gesticulação não poderá deixar de aludir à extravagância já advertida no título.

Uma mesa com duas cadeiras de cada lado. Um telefone. Uma TV ligada. Nela vemos desde o começo a imagem de Maria Axila. No meio de sua longa explanação, a luz ilumina Maria Socorro que durante alguns segundos observa a imagem na TV. A luz vai subindo sobre ela, sentada ao lado da mesa. Finalmente, afasta o olhar da TV, abaixa o volume com o controle remoto e olha para o público.

MARIA AXILA: (No escuro, a TV ligada feito ferida.) É na Idade Média onde tudo isto se resolve. O bestiário medieval, qualquer um deles, dá conta da lógica do caso. Existindo quatro elementos e tendo animais de água, de terra e de ar, por que não haveria de existir um animal de fogo? A salamandra, representada até o infinito como uma lagartixa entre as chamas, é necessária para equilibrar a ordem do universo. Para que o sistema continue de pé. Acreditava-se que, em cada crepitação da lenha, quando as faiscas lembram um jogo de pólvora e carmim, nascia uma salamandra, e que sua vida durava o mesmo tanto que a fogueira, e que sua inteligência era, entretanto, mais aguda ainda do que a do homem. Embora muito efêmera. No entanto, matar um basilisco aproximando-se dele pelas costas, acompanhando seu fétido olhar através de um espelho de mão. Depois de matá-lo, o espelho deverá ser destruído e os cacos, enterrados longe dos galinheiros. Porque acreditava-se que o basilisco nascia nos galinheiros. Com certeza encontrava-se um basilisco por perto toda vez que uma galinha chocava um ovo vazio. Ou, melhor dizendo, o ovo vazio, sem chocar, era um sinal evidente de que o basilisco já tinha, inexplicavelmente, atravessando a casca. Nada sabemos do aspecto geral do basilisco. Há muitas versões a respeito e não é fácil separar o joio do trigo. Poderia ser parecido a uma perdiz ou a um verme. Mas seus olhos, sem dúvida nenhuma, deviam meter medo.

MARIA SOCORRO: “É você, Socorro, é você”. Minha história é simples. Somos três irmãs, mas já faz tempo que deixamos de ser uma família. Espero que não lhes incomode que os trate desse jeito. Digo, como público. É provisório. Se quiserem, eu conto. Isto que vocês vão ver é verdade.

(Black out breve. Acende a luz sobre Maria Socorro, em posição idêntica).

MARIA SOCORRO: Somos três mas uma de nós, sabemos, é adotada. Nascemos trigêmeas mas uma de nós morreu no parto. (...) Mamãe ficou desolada e não podia curtir nenhuma de nós, sabendo que sempre faltava uma, qualquer uma. Olha que eu não nem um pouco feliz de falar nisto. De modo que, ainda na clínica, deu entrada nos papéis da adoção. Foi um parto muito difícil. Tudo isto segundo papai, que teve lá os seus problemas. Melhor não falar nisso. Foi assim que, alguns dias depois, éramos, de novo, três bebês em casa. Mamãe e seu marido tomaram essa decisão e foram inflexíveis, adamantinos: nunca disseram qual era a adotada. E gostavam de nós três por igual. Com um amor que mal dava para apenas uma. Nos batizaram Maria Socorro, Maria Bruxas e Maria Axila. Eu sou Socorro. Mas não tenho prova de ser a primeira. Ou a legítima. Maria Axila tem estudado um pouco de tudo e sempre se deu bem em tudo quanto fez. De modo que, levando em conta a vulgaridade de papai e mamãe, nós duas sempre suspeitamos dela. Agora mesmo tem um programa na televisão. Ensina fonética, filologia comparada, essas coisas.

MARIA AXILA: (Na TV). ...portanto, de qualquer modo, a pergunta correta seria: quem poderia nos fornecer um tal dicionário, um dicionário para explicar os símbolos do mundo, as pistas que o mundo dá sobre todas aquelas coisas que nos são desconhecidas? Já explicamos de que maneira não há vínculo lógico, e muito menos natural, entre o som de uma palavra e o seu significado. Podemos pegar o som “L”, se quiserem, a analisar o mesmo fenômeno. Aparece o “L” em palavras que tenham a ver com um conceito “L”, por assim dizer? Existe uma idéia sempre presente nas palavras com “L”? Depois do intervalo, vamos tentá-lo. De modo que não desliguem porque nos propomos fazer uma lista de uma grande quantidade de coisas com o fonema “L” e ver como funciona.

(Súbito balça out. Logo após, acende-se a luz sobre Maria Bruxas sentada do outro lado da mesa e falando ao telefone. A TV permanece desligada.)

MARIA BRUXAS: (...) Sim. (...) Não faz mal, papai. (...) Você queria mais alguma coisa? (...) Bom, eu vou lhe dizer, se ligar, mas duvido que seja minha irmã. (...) E eu com isso? (...) Já não somos crianças, não acha? (...) Bom, se ligar, eu digo. (...) Não, nem pretendo ligar pra' ela, não vamos discutir isso tudo de novo. (...) Prefiro nem falar com ela. (...) Então você liga. (...) Não estou nem aí se a Maria não quer atender você. Diz que é urgente e que a vida de uma das três corre perigo. (...) Eu não acredito. Ninguém esquece uma coisas dessas. (...) Devem ter queimado as certidões de nascimento mas mesmo assim deveriam lembrar qual era a outra. Alguma coisa, sei lá... O jeito de sorrir quando a gente mamava, alguma coisa, sei lá, o olhar carente do bebê. Isso é coisa que não se esquece se a gente amamentou um filho, sabe? (...) Sim, eu já ouvi, que mamãe te pedia pra' sair quando nos dava o peito. (...) Ela teria lá seus motivos. Mais alguma coisa? (...) O jeito que eu te trato? (...) Perdoar? Mas não tem nada que perdoar, seu imbecil!

(Desliga, terrivelmente exaltada. Recompõe-se. Logo depois, rói as unhas. Olha para o telefone. Duvida. Liga a TV com o controle remoto que está sobre a mesa.)

MARIA AXILA: (Exagera visivelmente a pronúncia do “L”; o plano é muito fechado, vê-se praticamente a sua enorme boca que ocupa toda a tela.) “Langua”, “Lagoa”, “Lago”, “Languinho”, “ilha”, “ilhéu”... e muitos outros exemplos que falam evidentemente da antiga hipótese de que o “L” é líquido e está presente em todos os conceitos que tem a ver com a água. “Lake”, “LittLe Lake”, “Lagoon”, “Loch”, “isLand”, “the isLander”... muda a língua, mas a presença líquida desse fonema é inegável. Ora, vejamos quê acontece com as palavras “água”, “caneca”, “barco”, “oceano” e tantas outras que parecem querer refutar a idéia de que...

(MARIA BRUXAS baixa o volume pelo controle remoto. A imagem sem áudio de MARIA AXILA continua na tela. MARIA BRUXAS pega o telefone de repente e disca um número.)

MARIA BRUXAS: Socorro? (...) Sim, eu mesma. Espera aí, sério, não desliga. É importante. Papai ligou... quer dizer, Armando... (...) Como que Armando? Armando Lafárrega. (...) Alô? Alô!

(Desligaram. Olha o telefone. Desliga. Puxa um cigarro. Põe na boca, sem acender, e fica assim por um tempo, com o olhar ausente. Depois guarda o cigarro sem fumar, pega o telefone e torna a discar.)

MARIA BRUXAS: Sua filha da puta. Não precisa falar, mas se não fosse pelas estúpidas circunstâncias... de que eu acabo de ficar sabendo... não ligaria nunca mais para você na minha vida. Continuo pensando que você é uma completa idiota. Nem ao menos lembro do teu número, e agora mesmo, para te ligar tive que virar a casa toda, para encontrar uma agenda de 92 onde anotei teu telefone. Pensei que tinha jogado fora. (...) Não, papai não me falou... Digo, Armando, tá bom, ele não me disse. Por quê você pergunta? (...) Não estou nem aí. Escuta direito, porque é a única coisa que vou falar: parece que mamãe está por morrer, de uma estranha doença incurável. Que se transmite de mães para filhas. Legítimas, é claro. Precisa começa a fazer quimioterapia, no caso de... isto é, duas de nós. De modo que apenas uma vai ser salva, dizem os médicos. Mamãe e papai falam que não lembram qual era. (...) Diz que depois de tantos anos. (...) Já sei. Conta uma história inverossímil de como queimaram as certidões de nascimento na terrina de faiança da vovó, essa que guardavam com as alças quebradas que, acabo de ficar sabendo, saltaram como bolas de basquete no fragor das chamas. (...) Não, a clínica não existe mais, pegou fogo nos anos 70. (...) Não seja tola, é claro que não foram papai e mamãe. (...) Eles querem nos ver. (...) Eles nos vendo, talvez a mamãe lembre. É questão de vida ou morte. (...) Logo. De forma que se você quiser ir, me liga e eu dou o endereço. (...) Você me liga e eu dou. (...) É. (...) Você vai ter que ligar. (...) Não faz mal que você não queira ligar para ele; ao menos você vai ter que me ligar. (...) Eu quero ver se você não liga porque não tem o número. (...) Ah, não, nem pretendo ir nessa maldita clínica. (...) Estou te falando só porque Armando me pediu, e te esclareço que eu disse que não o iria fazer. (...) Como você quiser!

(Desliga, brava. E sem transição, aumenta o volume da televisão.)


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